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Nomeação na CAPES destaca excelência acadêmica do Departamento de Teologia da PUC-Rio
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Designação do professor Padre Abimar Oliveira de Moraes à CAPES sinaliza novos tempos para a Área no Brasil

Pe. Abimar representando o Departamento de Teologia em evento teológico internacional

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Abimar representando o Departamento de Teologia em evento teológico internacional em 2024.

 

O Departamento de Teologia da PUC-Rio passa a ocupar lugar de destaque no cenário acadêmico nacional com a recente designação do professor Padre Abimar Oliveira de Moraes como coordenador titular da Área Ciências da Religião e Teologia da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A fundação é vinculada ao Ministério da Educação e responsável pela avaliação e fomento da pós-graduação no país.

A nomeação, inédita no Brasil por ser a primeira vez que um presbítero assume essa função, projeta não apenas a trajetória do docente, mas também a relevância acadêmica do Departamento de Teologia da PUC-Rio na formação teológica e na produção científica em diálogo com a sociedade. Trata-se de um reconhecimento institucional que reforça a presença da universidade nos espaços estratégicos de definição de políticas científicas nacionais.

Professor da PUC-Rio desde 2004, Padre Abimar é, neste quadriênio, o único docente da universidade a ocupar uma coordenação de área na CAPES — um indicativo da excelência e da confiança depositada na produção acadêmica da instituição. Ao longo de sua trajetória na universidade, Padre Abimar exerceu funções-chave, como coordenações de graduação e pós-graduação. Atualmente lidera o Setor de Cultura Religiosa do Departamento de Teologia, contribuindo diretamente para a formação integral dos estudantes de todos os cursos da Universidade.

A designação, publicada no dia 2 de abril, ocorre em um momento simbólico de sua vida ministerial: em 2026, celebra 30 anos de ordenação sacerdotal, dos quais 24 deles foram dedicados também à docência no ensino superior. Sua trajetória expressa a articulação consistente entre fé, reflexão acadêmica e compromisso com a formação teológica no Brasil — marca distintiva também da identidade do Departamento de Teologia da PUC-Rio.

Na CAPES, o novo coordenador assume um papel estratégico na condução de políticas para a área, com impacto direto na avaliação de programas, no incentivo à pesquisa e na consolidação da pós-graduação. Para a universidade, sua presença nesse espaço amplia a capacidade de interlocução institucional e fortalece o protagonismo da PUC-Rio nos debates contemporâneos sobre religião, ciência e sociedade.

Ao apontar os desafios da nova função, Padre Abimar destaca a necessidade de ampliar a inserção pública da área, reduzir desigualdades regionais e qualificar ainda mais a produção científica. Nesse horizonte, sua atuação tende a reafirmar uma perspectiva integrada entre teoria e prática — um eixo que também orienta a missão acadêmica do Departamento.

Mais do que uma conquista individual, a nomeação consolida o papel da PUC-Rio como referência nacional na área de Teologia e Ciências da Religião, evidenciando sua contribuição para a construção de um pensamento crítico, plural e socialmente relevante.


Confira a entrevista.

 

Teologia PUC-Rio – O que é a CAPES e qual o papel de um Coordenador de Área?

 Pe. Abimar – CAPES é a sigla para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Existente há 75 anos, ela é uma fundação do Ministério da Educação, que desempenha papel fundamental na expansão e consolidação da Pós-graduação em todo Brasil. Ela autoriza e avalia o funcionamento de instituições de ensino públicas, privadas e comunitárias, garantindo a qualidade educacional no nível do mestrado e do doutorado. Dentre as suas principais missões estão as ações de avaliação dos cursos novos que vão integrar o Sistema Nacional de Pós-graduação e avaliação da permanência dos cursos que já integram o mesmo Sistema. Além disso, eu destacaria a formação de recursos humanos qualificados como um dos seus maiores objetivos. Para que tudo isso aconteça, a CAPES está articulada em três grandes níveis: Colégios, Grandes Áreas e Áreas. Nesse terceiro nível, a CAPES, atualmente conta com 50 Áreas de Avaliação. Em 2016, portanto, recentemente os Programas já existentes, mas que pertenciam a uma outra Área, foram reconduzidos para uma Área autônoma e que hoje é designada Ciências da Religião e Teologia. A autonomia da Área trouxe consigo a necessidade de que, assim como acontece com todas as outras, ela tivesse um Coordenador Titular. A quem compete, sobretudo, em um período de quatro anos, coordenar, planejar e executar as atividades de formação, ensino, pesquisa, produção intelectual, internacionalização, fomento, políticas afirmativas e extensão no campo das Ciências da Religião e da Teologia.

Teologia PUC-Rio – O que essa designação representa na sua trajetória presbiteral e acadêmica?

Pe. Abimar – Em primeiro lugar, penso que ela representa um gesto de confiança por parte da comunidade acadêmica da Área. O processo de designação inicia-se na base, isto é, os Programas de Pós-graduação e Sociedades Científicas da Área fazem indicações de pessoas que eles identificam, de maneira colegiada, como capazes de exercer as funções que mencionei anteriormente. Nesse sentido, há uma confiança depositada em mim. Uma confiança que espero encontrar o melhor modo de retribuir. Em seguida, os indicados precisam dar seu aceite e apresentar um programa de trabalho que será avaliado pela presidência da CAPES. Aqui identifico o quanto consolidei minha carreira acadêmica, mas também humana, sendo capaz de traduzir, em palavras, as principais ideias que norteiam as funções de liderança e protagonismo que exerço na Área. Por fim, após análise de todas as indicações que deram o aceite, a presidência da agência designa - foi o que ocorreu no último dia 2 de abril - o novo coordenador. Nesse ato da CAPES, eu identifico a continuidade dos trabalhos, uma vez que eu já fazia parte da Coordenação de Área, porém, na condição de coordenador adjunto de um conjunto de Programas. Mas, ao mesmo tempo, a continuidade não exclui a esperança de elementos novos, colhendo, portanto, os frutos do que outros plantaram generosamente e renovando a certeza de caminhos ainda mais fecundos para a Área.

Teologia PUC-Rio – O fato de ser o primeiro presbítero a ocupar essa função traz um peso simbólico. Como interpreta esse marco?

 Pe. Abimar – Desde sua autonomia, em 2016, eu sou o primeiro coordenador vinculado de maneira explícita a uma função de liderança religiosa. Fui precedido pelos colegas Flávio Senra e Carolina Teles que, com suas respectivas equipes de trabalho, pavimentaram o chão que agora estou por percorrer. Em si, a designação como Coordenador está vinculada à capacidade de liderança acadêmica na Área, que independe de vinculação religiosa ou não. Contudo, me permito fazer uma leitura de caráter pessoal que pode ser traduzida do seguinte modo: o que o coordenador Abimar tem a dizer ao líder religioso Abimar? A resposta que me dou é: como é importante acreditar no diálogo e na pluralidade, ativando algo que faz parte da essência da Religião, isto é, a qualificação da convivência humana. Eu creio que a experiência religiosa deve estar a serviço dessa qualificação. Nesse sentido, me preocupo com exercícios de liderança que estimulam intolerância, sectarismo, proselitismo, fundamentalismo. É importante entender que a crença, mas também, a não crença e/ou afiliação a uma instituição religiosa são estados de vidas livres que devem ser respeitados, acolhidos e compreendidos. Creio que quando a comunidade acadêmica de Ciências da Religião e Teologia recomendou meu nome tenha enxergado esses valores de liderança religiosa.

Teologia PUC-Rio – Quando recebeu a designação, algum fato foi marcante para o senhor?

 Pe. Abimar – Sim, dois fatos, na verdade. Uma grande amiga que a Área me deu me escreveu assim: “vou estar em sintonia, porque realmente sinto gratidão pela qualidade do seu sacerdócio”. São palavras de uma mulher fantástica, dentre as mais inteligentes que conheço e que, embora, nem sempre tenha sido acolhida por líderes religiosos, foi capaz de ver isso em mim. O outro é uma experiência simbólica: quando a Portaria começava a se tornar pública, encontrava-me junto à minha comunidade de fé, no Santuário de Santa Rita, no Centro histórico do Rio de Janeiro, lavando os pés de doze mulheres, num ato solene de serviço e solidariedade. Confesso que a simultaneidade dos dois fatos permanecerá ecoando em meu coração, sobretudo, porque estou a poucos dias de celebrar meus 30 anos de liderança ministerial.

Teologia PUC-Rio – Sendo o único professor da PUC-Rio designado neste quadriênio como Coordenador de Área, como vê a responsabilidade de representar a instituição?

 Pe. Abimar – Esclareço que sou o único designado como Titular. Até o dia 13 de abril, os coordenadores titulares têm a prerrogativa de indicar os coordenadores adjuntos. Nesse nível auxiliar, a PUC-Rio poderá ter, ainda, alguma representação. Mas voltando a sua pergunta, trata-se de uma grande responsabilidade, mas que assumo com muita alegria. A PUC-Rio é um espaço de excelência acadêmica, de pioneirismo, de pesquisas qualificadas, sobretudo, no nível da pós-graduação. Ao longo desses 22 anos que estou no Departamento de Teologia, convivi e convivo com excelentes gestores humanos, homens e mulheres que, de maneira ininterrupta e qualificada, elevaram a instituição ao patamar em que ela se encontra. Gradualmente e, ao mesmo tempo, aprendendo com elas e eles, fui afinando minha liderança acadêmica, mas também, o equilíbrio humano-afetivo que cargos dessa magnitude exigem. Então sim, estou feliz em representar a PUC-Rio. Ao mesmo tempo, sei que posso continuar participando de um caminho que vai me qualificando a cada dia, porque é um espaço único de inteligências e vivências que só me tornam melhor, não me sendo possível, não a amar. Sobretudo, eu diria que hoje, eu não consigo não amar e respeitar (verbos usados no matrimônio católico) as mulheres e os homens, sem maiores ou melhores, mas diferentes pessoas, que diuturnamente participam dessa história de passado, presente e futuro de excelência.

Teologia PUC-Rio – Com 22 anos como professor da PUC-Rio e 24 anos no ensino universitário, em sua opinião, quais transformações mais marcaram a Área Ciências da Religião e Teologia nesse período?

 Pe. Abimar – Eu diria, em primeiro lugar, a capacidade que tivemos de construir relações e estudos interdisciplinares. Uma vez que a Área é composta por duas subáreas distintas: Ciências da Religião e Teologia. Especificamente falando sobre a Teologia, tenho percebido como ela vem se constituindo como campo em que o diálogo com outras áreas de conhecimento tornou-se imprescindível ao seu desenvolvimento teórico-metodológico. Tenho já alguns artigos e capítulos de livros que versam sobre o movimento que a Teologia atual vem conseguindo fazer de abordagem do fenômeno de Deus em si, para o fenômeno de Deus “a favor de nós”. Nesse sentido, sem deixar de lado o que uma comunidade de fé reconhece como sagrado e o seu respectivo patrimônio-religioso, a Teologia vem cooperando com questões que incidem sobre a vida dos humanos dentro da Casa Comum, numa perspectiva em ascensão que eu gosto de chamar de bio ou ecocêntrica.

 

Teologia PUC-Rio – Como teólogo, quais são hoje os principais desafios para a produção de conhecimento da Área no Brasil?

 Pe. Abimar – Na proposta que apresentei à CAPES, como parte do processo de aceitação do cargo, apontava o quanto a Área possui um espaço de crescimento, por exemplo, na direção da qualificação do debate público relativo ao papel da diversidade religiosa, da livre manifestação da crença e da não crença, como parte integrante da promoção de uma sociedade democrática que respeite os ordenamentos jurídicos que a constituem. Além disso, é de fundamental importância a atuação da Área no enfrentamento dos desafios que se apresentam no cenário nacional, no campo da educação, da cultura, da política, da ética socioambiental, dos direitos humanos, da saúde pública, do diálogo e da tolerância. Portanto, creio que um grande desafio é fazer chegar até as políticas e/ou opinião públicas a qualidade de nossas pesquisas e o impacto positivo que elas podem gerar na sociedade.

 

Teologia PUC-Rio – Que prioridades pretende estabelecer à frente da Área na CAPES?

 Pe. Abimar – Em minha coordenação, proponho-me a dar continuidade ao processo de aprofundamento da reflexão sobre o perfil teórico-metodológico dos Programas, tendo em vista as especificidades das duas subáreas que compõe a Área (Ciências da Religião e Teologia) e de suas duas modalidades: acadêmica e profissional. Buscarei dar continuidade ao processo de revisão das propostas já existentes e incrementar a produção científica e técnica, a fim de melhor explicitar esse perfil teórico-metodológico e o impacto da produção intelectual da Área. Outra questão importante que gostaria de enfrentar diz respeito às assimetrias existentes. Atualmente, por exemplo, as regiões Centro-Oeste e Norte são as que têm menor presença de Programas de Pós-graduação, contando, atualmente, com um em cada região. Considero digno de nota o quanto a Área conseguiu, no ciclo avaliativo 2021-2024, aprovar e implementar projetos de cooperação interinstitucionais nessas duas regiões, sobretudo, na região Norte. Minha proposta de atuação vai na direção de que a Área continue adotando políticas de incentivo que favoreçam a ampliação da oferta de cursos para essas regiões, em especial, acompanhando os Programas que têm projetos de cooperação interinstitucional, estimulando, quando possível, novos projetos, visando, sobremaneira, a abertura de novos Programas nessas regiões. Faz-se necessária, também, a ampliação da presença de docentes do sexo feminino, pois, no estado atual, as mulheres constituem pouco mais de 20% do número total dos que atuam na Área. Nossa proposta quer incentivar os Programas, em suas ações de renovação dos quadros, a comprometerem-se, sempre mais, com a diminuição de tal assimetria.

Teologia PUC-Rio – Neste ano o senhor celebra 30 anos de ordenação presbiteral. De que forma a vivência pastoral influencia sua atuação acadêmica e vice-versa?

Pe. Abimar – Sim...a idade chega. Olhando para trás, nunca me imaginei chegando às bodas de pérola de ministério presbiteral. Essa é uma grande graça que o Senhor me concedeu. Ao longo desses 30 anos, eu sempre busquei manter algum tipo de vínculo pastoral. Existem autores clássicos e modernos da Teologia que, de modo distintos, sempre dizem que ela precisa ser construída na articulação entre cabeça, coração, mãos e pés. Nesse sentido, a pastoral não só influencia, mas interpela o meu fazer teológico. Ao mesmo tempo, percebo que a atuação acadêmica também refinou o meu ministério pastoral. Recentemente ouvi um senhor, que frequenta assiduamente nosso Santuário de Santa Rita, dizer: “num minuto de pregação, Pe. Abimar nos dá sempre uma aula”. Eu fiquei bastante impactado com o que ele, em sua inteligência, foi capaz de perceber e, me gratifica, perceber que ele não é o único.

Teologia PUC-Rio – Sua trajetória combina fé, docência e pesquisa. Em que momento percebeu que essas dimensões poderiam caminhar juntas?

Pe. Abimar – Eu não diria “momento”, eu diria que houve um processo. Nesse processo os arcebispos da Arquidiocese do Rio de Janeiro desempenharam um papel fundamental. Dom Eugenio Sales ao me enviar para os estudos de mestrado e doutorado em Roma, intencionava qualificar a experiência pastoral arquidiocesana, sobretudo no campo catequético. Dom Eusébio Scheid, ao meu retorno, me permitiu a inserção na PUC-Rio. Já Dom Orani João Tempesta é um grande apoiador de minha atuação tanto no cenário nacional quanto internacional. E por que estou mencionando os bispos? Porque eles são a primeira referência para o exercício do ministério de um presbítero. Na ordenação presbiteral prometemos obediência ao bispo ordenante e seus sucessores. Estamos acostumados a pensar o presbítero em referência quase exclusiva à paróquia. Mas na verdade, esse modelo pastoral paroquial é mais recente se comparado com o modelo em que o presbítero se apresenta como auxiliar das muitas realidades que compõem uma igreja local e que devem ser zeladas pelo bispo e seus ministros auxiliares. Aqui me recordo, por exemplo, do que o Bispo de Roma Dâmaso pede ao seu presbítero Jerônimo: traduzir as Sagradas Escrituras em linguagem popular, acessível às pessoas da sua igreja local. Nesse sentido, o bispo Dâmaso não designa Jerônimo para um local específico, “uma paróquia”. Mas pede que ele realize um profundo trabalho de tradução das Escrituras que não pode ser realizado sem o justo equilíbrio entre vivência da fé e inteligência da fé. E é assim que eu me sinto presbítero na igreja do Rio de Janeiro, minha primeira missão é, em obediência ao meu bispo, servir a igreja local, mediante a articulação entre fé vivida e fé pensada. Sei que estou a serviço não tanto de uma “geografia” que é a paróquia. Sem excluir tal “geografia”, minha missão primeira é qualificar outros espaços além dos internos à minha igreja local. É essa a articulação que busco fazer. Abençoada Páscoa a todas e todos e rezem por minha nova missão!