Lançado em julho de 2019, o livro Compêndio do Cânon Bíblico, do Professor Pe. Waldecir Gonzaga, do Departamento de Teologia da PUC-Rio, traz uma série de listas bilíngues de manuscritos originais da área do Cânon Bíblico em grego e latim e a tradução para o português. A apresentação da construção do cânon mostra como a Sagrada Escritura foi gestada através do tempo. A obra trabalha com uma abordagem ecumênica que busca contribuir para um diálogo de unidade entre as várias igrejas cristãs.

A ideia de escrever sobre o assunto veio de um incômodo notado ainda quando era aluno de teologia, de lacunas nas bibliografias que tinha acesso, no que diz respeito ao conhecimento da história do Cânon Bíblico. Quando chegou o momento de apresentar um tema para o estágio no pós-doutorado, em 2017, na Faculdade Jesuíta (FAJE), o professor decidiu pelo Cânon Bíblico: Antigo e Novo Testamento. Durante a pesquisa, Pe. Waldecir conseguiu mais material do que o necessário para a apresentação de conclusão do estudo. A decisão de escrever um livro foi discutida com o professor orientador, Pe. Johan Konings, a fim de aproveitar todo o material, além do resultado apresentado como conclusão do Estágio Doutoral. Esta primeira edição conta com 1.500 exemplares.

Compêndio do Cânon Bíblico foi pulicado em coedição entre a Editora Vozes e a Editora da PUC-Rio, e é um material completo para pesquisadores e alunos da área de teologia.

Leia a entrevista na íntegra:

  1. No prefácio do livro Compêndio do Cânon Bíblico, o Prof. Johan Konings diz que o livro surgiu para suprir uma deficiência acadêmica. Como o senhor identificou essa deficiência, foi como aluno ou professor?Pe. Waldecir: Desde o tempo em que eu estudei Teologia, eu já tinha notado que essa deficiência existia. Eu procurei o Prof.  Konings e partilhei com ele este meu desejo e esta minha preocupação com a lacuna que existia na área acadêmica, bíblica e teológica. Ele ficou encantado com o projeto, viu que realmente era muito bom e começamos a delineá-lo. Cabia a mim o fato de pesquisar um pouco para saber se realmente essa lacuna existia ou não. Fui atrás de vários livros na área do cânon e mais do que nunca constatei que era verdadeira. E a lacuna era que todo mundo dava notícia de que esses manuscritos existiam, mas nós não tínhamos conhecimento deles e nenhum autor trazia os manuscritos originais. Em alguns do século XIX (do mundo alemão), eu encontrei os que traziam alguns dos textos dos manuscritos, mas não traziam a tradução, então quem não sabia ler grego ou latim ficava prejudicado. Alguns do mundo francês ou inglês traziam a tradução, mas não traziam os originais para gente poder confrontar se realmente aquilo era verdadeiro ou não, se a tradução correspondia ou não aos originais. Todos esses limites possíveis de qualquer tradução. Enfim, eu constatei que quem trazia a tradução, não trazia os originais, quem trazia os originais não trazia a tradução. E persegui aquela ideia de poder fazer alguma coisa, ou seja, de trazer e publicar os textos originais que falassem das listas ou dos catálogos das listas dos textos bíblicos desde o séc. II d.C., passando pela Reforma, até o Concílio Vaticano II.
  2. Quais foram as maiores dificuldades na sua pesquisa? Pe. Waldecir: As dificuldades eram encontrar esses manuscritos. Eu tinha muito claro na minha cabeça, mas não tinha como comprovar ainda, que estes deveriam estar todos na Patrologia Grega e na Patrologia Latina, da Migne, que são duas coleções que temos do século XIX reunindo os textos dos Padres da Igreja, do final do I século do cristianismo até o XIII ou XIV século. Então inicialmente eu fui atrás dos textos, tirando fotocópias e fotos para melhor poder estudar. No Brasil, eu frequentei o mosteiro de São Bento do RJ, a biblioteca dos Franciscanos, em Petrópolis, e da FAJE (Faculdade Jesuíta, de BH), porque eles têm essas coleções. O problema é que nem todos tinham coleções completas, então corri atrás de quem tinha. Parti para a Biblioteca de Saulchoir, dos dominicanos, em Paris; para as bibliotecas da Gregoriana e do Pontifício Instituto Bíblico, ambas em Roma. Em todos os lugares eu colhi e recolhi material e trouxe para o Brasil e comecei a trabalhar duro na catalogação e tradução deste material.
  3. Quanto tempo durou a sua pesquisa? Pe. Waldecir: A pesquisa em si não durou muito tempo porque quando eu ia para Europa, eu ficava dez dias cada vez. O período para poder encontrar, catalogar e traduzir os textos foi o período que levei para fazer o pós-doutorado, 1 ano. 
  4. O senhor convidou o professor Johan Konings pra escrever o prefácio?
    Pe. Waldecir:
     Fui eu que pedi assim como pedi ao Padre André o posfácio e ao Padre Leonardo, a carta de endosso, que está na quarta capa do livro. O Padre Konings foi meu orientador do estágio de pós-doutorado. Ele, melhor do que ninguém, conhecia todo o material trabalhado e o texto agora publicado. Isso era uma questão não só de gratidão, mas de reconhecimento porque ele é o homem que viu isso ser gestado e ir crescendo, pouco a pouco.
  5. Qual a importância do diálogo ecumênico para um livro de teologia? Pe. Waldecir:  Não tem como fazer teologia sem levar em consideração que a sociedade é plural, que, inclusive, existem entre aqueles que creem e aqueles que não creem. E depois entre aqueles que creem, nem todos acreditam da mesma forma. Eu digo dentro do cristianismo, sem contar religiões não cristãs. Mas mesmo entre as religiões cristãs há quem acredita de outra maneira e outro de outra forma. É preciso respeitar o aproximar-se de Deus na vida de cada um. Ademais, dentro do cristianismo, após do Conselho Vaticano II, já está concretizada a abertura ao diálogo, ao ecumenismo, ao trabalho em parcerias. Essa é uma grande conquista da caminhada da igreja e que não podemos perder. Então, não teria razão de se fazer um texto pensando tão somente o mundo católico. É óbvio que a gente precisa ter uma abertura ao diálogo e uma ajuda mútua nos estudos teológicos e no serviço ao Reino de Deus. O trabalho em comum é o que nos proporciona avançar no diálogo e na construção de uma sociedade bonita para o futuro, justa e igualitária, segundo o projeto de Deus.